A CORAGEM DE SER

Jesus Amigo 2Na última semana, a mídia se alvoroçou com a revelação da sexualidade do ginasta Diego Hypólito, medalhista olímpico e figura pública do cenário esportivo brasileiro há mais de uma década. De uma hora para a outra, como sói fazer, a imprensa se meteu a fazer análises e replicar a notícia com o intuito de ganhar mais visualizações (o que, na atual conjuntura, é o que dita o sucesso dos jornais e portais de informação). Foi aí que, acidentalmente, o assunto veio à minha atenção, pois algumas pessoas compartilharam a notícia e comentavam coisas do tipo “isso, a gente já sabia”.

Ao ler a notícia, entretanto, ficava bem claro que não se tratava de mais um relato condescendente de alguém que queria visualizações e chamadas na mídia. Era uma história de alguém que passou boa parte de sua vida adulta escondendo de sua família algo que, obviamente, era auto evidente.

Ou seja, o relato fala de um grande e vitorioso atleta, no auge de sua carreira e com toda a visibilidade que seu mérito profissional trouxe, que não conseguia partilhar das coisas mais simples da vida com as pessoas mais próximas de si.

Isso tudo, por si só, já seria muito triste. Mais triste ainda é saber que a grande causa por detrás disso tudo é a religião. Mais precisamente, a religião cristã.

Não é o primeiro, nem será o último retrato de jovem que, por conta de sua sexualidade ou identidade de gênero, terá que lidar com o silêncio familiar, com o ostracismo ou com o medo de assumir algo que será visto como problema para as pessoas mais queridas do seu ambiente afetivo próximo. Todo dia, histórias como essa se repetem em várias partes do país (e do mundo). A todo momento, um eco de sofrimento ressoa nos nossos ouvidos, vindo dos inúmeros Diegos das igrejas e comunidades.

Mas muita gente ainda está aí dizendo que Deus “ama o pecador, mas abomina o pecado”.

O Bom Pastor ama o pecador, sim. E dá a sua vida por ele (e por ela também, embora esteja convencido de que os maiores pecados têm sido cometidos por homens…). Ao nos lembrarmos do paradigma do Bom Pastor, deixemos para trás toda e qualquer interpretação de Deus como um sádico, que premia certas pessoas com um desejo errado apenas para vê-las sofrer toda a sua vida por algo que nunca escolheram, nem tampouco escolhem ser.

O Bom Pastor, que conhece as ovelhas, é o árbitro final sobre quem entra ou não entra em seu aprisco. Porém, posso dar um spoiler: ele busca todo mundo. Ninguém fica do lado de fora. Todas as ovelhinhas são carregadas de volta para sua casa e sua família.

E mesmo assim, ainda tem gente por aí dizendo que Deus “ama o pecador, mas abomina o pecado”.

O título desta meditação repete um clássico da teologia do século XX, de autoria de Paul Tillich. Nele, o autor nos relembra que a fé, em meio a um mundo de negação da fé, é transformadora de consciências, estímulo para a vida, potencializadora da coragem, força motriz que nos leva adiante. Esse convite, ao contrário do que você possa estar pensando, não é somente para aquelas pessoas que precisam “se assumir”. É para toda a Igreja.

Ninguém precisa assumir o que já é. A Igreja, sim, precisa assumir a sua real responsabilidade com o acolhimento e o alcance de vidas.

Assuma-se enquanto igreja. Volte no tempo, veja o quanto falhou em ser imagem e semelhança de Deus. Siga o exemplo do Bom Pastor e vá atrás de todas as ovelhas, sobretudo aquelas que você achava dignas de busca. Isso é um ato de fé. Isso é um ato de coragem, que traz à vida da Igreja o testemunho não do deus sádico e cruel que assola a mente de tanta gente ao nosso redor, mas do Deus vivo, amoroso, que sempre está ao alcance de um abraço, pronto para carregar você nos braços e trazê-lo(a) de volta ao lugar que chamamos casa, família, aprisco: o coração de Cristo.

Rev. Luiz Coelho+

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