Eu tenho! Você não tem!

Quando eu era criança, havia um comercial de televisão das tesouras da Disney, no qual um menino (com a tesoura do Mickey) e uma menina (com a tesoura da Minnie) cantavam, ou melhor, gritavam em uníssono: “Eu tenho! Você não tem!” Ou, melhor dizendo:

EU TE-NHÔ! VOCÊ NÃO TEM-NHÊ!

Trinta segundos de tortura televisiva em sua forma mais simples, e uma musiquinha repetitiva que ecoava na voz das crianças ávidas por material escolar da Disney. Com certeza, os pais não deviam estar lá muito contentes, e a propaganda foi considerada tão abusiva que tanto a Disney quanto a agência de publicidade que a concebeu foram processadas e, creio, perderam na justiça.

Entretanto, por mais infantil que imaginemos ser esse tipo de comportamento das crianças no comercial, ele é muito presente nas igrejas da atualidade. Quem não se recorda de já ter ouvido frases como: “quando EU era da Junta Paroquial, isso não teria acontecido”, “quando MEU pai era o reitor desta paróquia, as coisas não eram assim”, “quando EU era do sodalício do altar, a igreja era um brinco”, “agora isto está organizado porque EU estou no comando, e não fulano/a”. Não precisam dizer… isso realmente é comum.

EU TE-NHÔ! VOCÊ NÃO TEM-NHÊ!

O cenário religioso judaico daquela época permitia atitude similar. Os saduceus reivindicavam serem os descendentes de Sadoque, e únicos capazes de exercer o sacerdócio no Templo. Os zelotas eram fundamentalistas muitas vezes violentos, que não toleravam concessões ao poder romano e aos governantes estrangeiros. Os essênios, de certa forma, aparentemente, também bastante radicais, mas preferiam viver em comunidades fechadas e isoladas. Já os fariseus eram o partido em ascensão naquela época. Achavam que não bastava o templo ser reconstruído, mas que a vida também tinha de ser pautada pela purificação pessoal e respeito à Lei.

Jesus, pelo contrário, inverteu a percepção popular do que é santo e do que é profano, mostrando que, para Deus, tais divisões são perversões humanas. O Reino de Deus não pode ter barreiras, sejam elas de etnia, sexo ou riqueza. Os atos penitenciais só são válidos aos olhos de Deus quando se tornam fonte de justiça, amor e humildade. Assim, vale muito mais o coração contrito daquela pessoa malvista pela sociedade, que os jejuns e orações pomposas de outra pessoa, que se julga importante no cenário religioso e vista como “santa” pelo senso comum. Jesus não tem nada a ver com isso!

Precisamos, urgentemente, esquecer o “EU TE-NHÔ! VOCÊ NÃO TEM-NHÊ!” de nossas igrejas e aprender a seguir o exemplo de Jesus, segundo o qual o maior entre nós é quem serve!

EU TENHO (o amor, a responsabilidade e a justiça de Deus), E VOCÊ TEM TAMBÉM.

Rev. Luiz Coelho +

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