Fé e Cidadania

Jesus e PilatosUma dificuldade no exercício da cidadania é a ideia que Política e Religião não se misturam. De fato, Religião é um valor cultural, um conjunto de doutrinas e preceitos que tentar intermediar a relação entre os seres humanos e a Transcendência.

Todavia, Religião não é Fé. É certo que quem tem Fé professa uma religião, de forma crítica e tendo-a como orientação e sentido de vida. Mas nem todas as pessoas que professam uma religião têm Fé. Fé é um dom, uma dádiva concedida por Deus a quem O procura em sinceridade de coração.

Jesus não nos mandou fundar religiões, nem nos tirou do mundo! Antes, nos enviou ao mundo como Ele mesmo foi enviado pelo Pai, Jesus Cristo propõe uma fé inabalável no Reino de Deus!

Fé impõe critérios éticos, e um deles é o exercício da cidadania – ou seja, a presença política de cada pessoa na sociedade.

Em tempos de eleição muita gente usa o nome de Deus, blasfemando e contrariando o Mandamento de Moisés (cf. Êxodo 20.7 e Deuteronômio  5.11) . Quem se denomina cristão, evangélico, católico, etc. e usa isso como valor político em benefício próprio, é blasfemo e hipócrita. Também pastores, pastoras e líderes religiosos que impõem candidatos(as) ao rebanho sob seus cuidados, são falsos pastores e blasfemos, pois deveriam apresentar e representar o Cristo em suas comunidades, e dar o bom exemplo de cidadania não promovendo voto de cabresto.

A Fé Cristã, em seu referencial ético exige de cada fiel uma postura crítica e, portanto política, diante da sociedade. É na sociedade que a Igreja e cada um de nós somos chamados a dar testemunho do Evangelho, anunciar o Reinado de Deus e denunciar as obras diabólicas do Príncipe deste Mundo. Como ovelhas enviadas ao meio dos lobos, temos conosco o Bom Pastor que zela por nós. Cristãos e cristãs devem dar seu testemunho na sociedade, e isso, muitas vezes implica em ir na contramão da maioria, dos valores consumíveis e das palavras vazias. Quem acha que o Evangelho é neutro nessa matéria, ou engana a si mesmo (e aos outros) ou não conhece de fato o Evangelho.

Para cumprir as Escrituras e redimir o mundo, Jesus foi preso, surrado e crucificado; morto! O fato que foi usado como acusação contra ele foi político e não religioso. Foi acusado de pregar um Reinado que não era o de César, foi morto pelo Império Romano como traidor e subversivo, tendo ao seu lado dois zelotes – não, não eram ladrões pois os romanos cortavam as mãos de ladrões; a cruz era o castigo dos que traíam o Império e não honravam o Imperador. Também os santos mártires da Igreja Primitiva foram condenados não pela religião, mas porque não confessavam “César é o Senhor”, mas afirmavam “Jesus Cristo é o Senhor” (Kyrie – título reservado apenas ao Imperador) – um ato político. Jesus Cristo, o Senhor Ressuscitado, era (e é) o Senhor de suas (e nossas) vidas, e não o César,  o poderoso de Roma (de qualquer Império!)

Exercer a cidadania, portanto, para as pessoas cristãs de fato, é assumir seu papel social e político na sociedade, atuar de forma concreta na defesa dos valores do Reino e viver eticamente segundo o padrão do Evangelho.

Não se trata de entrar para um partido político, ou apoiar um determinado candidato, mas usar sua consciência e fortalecer os que defendem os valores do Reino: a vida, a natureza, a dignidade humana, a saúde pública, a educação para todas as pessoas, a liberdade de expressão, a liberdade de culto, enfim valores que promovam o bem estar da sociedade e não os valores que oprimem, os que defendem os poderosos, os que desrespeitam os direitos humanos, os que apregoam a violência, os que promovem a segregação…

Isso pode custar caro para a Igreja, para a comunidade de fé, mas é isso que o Senhor nos mandou fazer: anunciar o Evangelho e correr os riscos desse anúncio; e Ele prometeu que estará conosco sempre.

Pense bem antes de votar! Ore antes de votar! Vote bem e com a consciência de estar atuando como o Senhor espera de você.

Rev. Luiz Caetano, ost+

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