JUDAS ISCARIOTES, O ESTRANHO NO NINHO

Judas Iscariotes1Se há um personagem no Novo Testamento que costuma ser escrachado é o amigo de Jesus, Judas Iscariotes.  Isso, está no Evangelho de Mateus: “Amigo, a que vieste?” (Mateus 26.50). No original grego a palavra utilizada por Jesus é “philos” , palavra que significa forte amizade, não uma saudação gentil.

Vamos tentar conhecer melhor esse sujeito.

Há muitas teorias e suposições a respeito de Judas Iscariotes: seria um nacionalista, seria um zelote desiludido, ou um sicário, e outras mais.  Todavia, o que sabemos é que ele foi um dos Doze e era o responsável pelo dinheiro do grupo; sabemos também que dentre os Doze, era o único não Galileu,  havia nascido na Judeia.  Isso fazia dele um estranho no ninho dos Doze,  não ser galileu, mas judeu. Ora, os judeus desprezavam os galileus. Andando com os galileus, era um estranho no ninho entre os judeus…

As referências sobre Judas Iscariotes no Novo Testamento são depreciativas, mas não o coloca como o “mal dos males”.  Isso gerou muitos estereótipos sobre ele:  o traidor, o diabólico, o egoísta; na iconografia, ele sempre aparece com um rosto de mau, não sorri, seu olhar é lacônico. Mas teria sido assim, realmente? Afinal ele é, dos Doze, o  mais citado nos Evangelhos, depois de Simão Pedro.

Há muitos estudos sobre Judas Iscariotes. Este artigo seria muito longo para esgotar o assunto.  Mas quero discutir aqui a pecha de “traidor” que ficou sobre Judas e a  sua condenação.

No texto grego, o verbo que costuma ser traduzido como “trair”, na verdade significa “entregar”,  e no grego isso faz diferença! Mas não é isso que significou a condenação de Judas. Judas não é condenado por “trair” Jesus. Se assim fosse, quase todo mundo seria de fato condenado.

Simão Pedro traiu Jesus quando O negou diante dos servos do Sumo Sacerdote; os outros Apóstolos, menos João, traíram Jesus ao fugirem quando Jesus foi preso; a multidão que havia ovacionado Jesus quando ele entrou em Jerusalém, o traiu quando grita: “Crucifica-o! Crucifica-O”.

A própria Igreja trai Jesus quando se coloca como absoluta e se arvora em ser a única voz de Deus, quando a Instituição se torna fim em si mesma, quando a instituição não permite o movimento da missão e se fecha à ação do Espírito Santo, mantendo-se travada em suas normas, costumes, regras morais e tradições meramente estéticas.

Cada cristão e cada cristã trai Jesus quando se entrega ao pecado, quando se esconde para não testemunhar sua fé diante do mundo, quando se aliena da realidade em nome de uma “santidade” fora do mundo.

Nosso Senhor sempre perdoou as traições. Também perdoaria Judas Iscariotes.  Mas Judas não se permitiu ser lavado pelo Sangue que escorria da Cruz. Não se permitiu olhar o Cristo crucificado em nome de toda a humanidade, inclusive dele mesmo, Judas Iscariotes! Judas não deu lugar para a misericórdia de Deus! Preferiu agir por conta própria, e na angustia do arrependimento, tira sua própria vida, castiga a si mesmo.

Não foi o suicídio em si que condenou Judas, também disso seria perdoado se em um instante clamasse! O que condenou Judas foi estar fechado à misericórdia de Deus, fazer o que não era de sua competência, o julgar a si mesmo e condenar-se.  Fazer o que só a Deus cabe fazer!

Uma vez julgado por si mesmo,  deixou de lado a oportunidade de ser julgado pela Justiça de Deus, que é Misericórdia e Graça.  Condenado por si mesmo, precipitou-se para a Morte, e perdeu a oportunidade da Vida que estava sendo dada, na Cruz, por Aquele que ele mesmo entregou.

Por isso,  quando perceberes que traíste a Cristo, não te julgues imperdoável. Antes, coloca-te diante de Deus, confessa teu pecado e pede o perdão. Firma-te no propósito de não mais pecar e recebe o perdão pela misericórdia em nome daquele que, na Cruz, pagou o resgate pela tua vida!

Rev. Luiz Caetano, ost+

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