O Salmo 18: no tempo temeroso que vivemos.

Eu gosto de recitar e meditar os Salmos usando a versão do Livro de Oração Comum da nossa Igreja; trata-se de uma versão que procura manter a métrica e o ritmo dos originais hebraicos. Quase diariamente minha oração pessoal é ler salmos e meditar sobre eles.

O Salmo 18 é um daqueles em que o salmista está louvando a Deus por livramento e oração atendida.  Gosto particularmente de alguns versos, que compartilho com vocês (versão do Livro de Oração Comum):

1-2 Com fervor te amo, * ó SENHOR, força minha. 3 O SENHOR é minha rocha, minha fortaleza e meu libertador; meu Deus, rochedo em que me refugio; * meu escudo, minha força salvadora, meu alto retiro.

Já no início, o Salmista afirma sua confiança em Deus. E depois conta:

5 Rodeavam-me laços de morte, * e torrentes de impiedade me amedrontavam.
6 Cercaram-me tristezas do inferno, * e laços de morte me atingiram.

Essas palavras são atemporais! servem para qualquer tempo; valiam no tempo do Salmista, valem ainda hoje! O salmista descreve uma situação terrível que o deixou em estado de depressão.

Vivemos tempos satânicos, onde a aparente fartura e alegria provocada pela alta tecnologia (não disponível para todo mundo) contrasta com as vidas vazias e sem sentido de muita gente, a ponto de dizerem que “felicidade são alguns momentos”.

Muita gente busca desesperadamente a alegria passageira que se manifesta no “estar em dia com os padrões de consumo”.  Mal se inicia uma festa, já se pergunta  desesperadamente pela próxima… mal se chega na balada e se pergunta onde vamos amanhã? o que vamos curtir? milhares de jovens lotam casas de espetáculo em busca de uma alegria momentânea que se expressa no individualismo de pular ao som da música (?!), e o afeto movido a alcaloides… têm de descontrair porque a vida está uma barra muito pesada, o futuro é incerto, a vida se tornou uma disputa permanente pela prosperidade individual e é preciso uma tragédia para despertar os instintos de solidariedade que garantiram a sobrevivência da raça humana no passado.

Como o salmista, muitas pessoas sentem-se cercadas por tristezas do inferno, laços de morte, torrentes de impiedade… vemos essas situações diariamente na imprensa de nossas cidades, mas sempre tratadas como se fosse uma excessão. Além disso, o estresse dos nosso tempo, a necessidade de urgência em tudo, essa pressa que faz parecer que o dia não tem mais 24 horas, gera em nós uma ansiedade terrível.

A tecnologia que, diziam-nos há 30 anos, vai aliviar a carga humana de trabalho e permitir mais liberdade, convivência e lazer, se torna uma força opressora que nos torna dependentes dela e, ao mesmo tempo, com a sensação de impotência para atender a tudo que nos é exigido: a exigência de sempre dar resposta a correios eletrônicos e mensagens de What’sApp e a terrível necessidade de afirmar a própria existência vazia que obriga a postar “selfies” a todo instante.  Sem que se perceba é  tecnologia escravizante. Você escravo do seu smartfone!

Ao mesmo tempo, nunca se falou tanto em “qualidade de vida”, “manter a forma física”, “alimentação saudável” (em meio à enorme quantidade de fast food nas sempre lotadas praças de alimentação dos shoppings…).

Contradições do nosso tempo mascaradas pela mídia que perdeu o rumo da decência e da ética, a fim de garantir sua sobrevivência dependente do “mercado”, uma “divindade absoluta”, uma nova categoria de imanência que se disfarça de transcendência.  Por isso, a depressão é a grande epidemia dos nossos centros urbanos, e atinge pessoas de todas as classes sociais e faixas etárias.

Prossigamos com o salmista:

7 Na angústia clamei ao SENHOR, gritei por socorro a meu Deus; * ouviu de seu templo minha voz e meu clamor chegou a Seus ouvidos. […]

Hoje o “clamor” se transformou em buscas de “espiritualidades alternativas” que promovem essencialmente o individualismo (o estar bem consigo mesmo), mantendo um clima de gentileza politicamente correta com as demais pessoas… “espiritualidades”, praticamente ateias, que informam sobre “conspirações do Universo a meu favor”, “uma energia positiva” e outras coisinhas, numa falsa interpretação da Mecânica Quântica, transformada em filosofia barata de autoajuda para consumo imediato e descartável pois não cria paradigmas nem valores..

Caminhando no salmo, mais adiante o salmista relata:

17 Do alto estendeu o Seu braço e me tomou;* tirou-me das muitas águas.
18 Livrou-me de pessoas fortes e daquelas que me aborreciam,* 
pois eram mais poderosas do que eu.
19 Atacaram-me no dia do infortúnio;* mas o SENHOR foi meu amparo.

Nesse sentido, assistimos no Brasil e no mundo, a cada dia, a perda de referenciais e valores, o crescimento da corrupção e da opressão, as tentativas de “equilibrar” e economia em favor dos poderosos e da minoria mais rica do mundo. Vemos a Ética sendo tratada com desdém e a mídia nos faz pensar que tudo está muito bem e sem problemas.

Ao mesmo tempo, vemos muitas pessoas se dando mal em busca de caminhos alternativos sugeridos pelo Sistema Capitalista, a ideologia do empreendedorismo, que tem levado milhares de pessoas à falência devido à ilusão de que seriam independentes e livres para ganhar seu dinheiro. A mídia privilegia os raros que dão certo e omite a grande maioria que se dá mal nos tais empreendimentos, que nada mais são do que trabalho informal e garante a redução estatística do desemprego, criando a falsa impressão de que a economia vai bem (e vai, para os muito ricos e poderosos, a elite imbecil e diabólica que dirige o mundo).

Tudo isso não acontece por coincidência: novas “espiritualidades” se coadunam com a pressão do sistema para iludir as pessoas quanto às perspectivas de futuro, incentivando o consumismo desequilibrado e feroz como sinônimo de “felicidade”. Estamos diante de uma ideologia diabólica, que privilegia a má informação, a ignorância disfarçada de liberdade de opinião , levando as pessoas a reinventarem pseudo-éticas que afirmam de forma positiva o racismo, o preconceito de gênero, a negação de direitos fundamentais, a exclusão dos diferentes e das minorias sociais.

Resta-nos, como cristãos e cristãs, como parte do Povo de Deus, recitar com o Salmista, profetizando contra Satanás que se torna sempre o Príncipe deste Mundo:

31 O caminho de Deus é perfeito; a palavra do SENHOR é provada;* é Ele um escudo para quem  n’Ele confia.
32 Pois quem é Deus senão o SENHOR? * E quem é fortaleza senão o nosso Deus?

Que o Senhor nos mantenha fiéis a tal certeza e esperança no ano civil que se inicia!

Rev. Luiz Caetano, ost+

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