Bíblia: Palavra de Deus ou de pessoas?

Simbolos-das-CartasA Igreja Cristã entende e considera  a Bíblia como a Palavra Revelada de Deus. Isso gera, muitas vezes uma tremenda confusão entre os que creem, porque as maneiras de interpretar o texto é muito variada. Infelizmente, muita gente e comunidades, interpretam um texto bíblico “ao pé da letra”, isto é, como se o texto fosse escrito em nossos dias, em nossa cultura e sociedade. Esquecem que textos bíblicos foram escritos em épocas distantes, dentro de diferentes culturas  antigas, e em línguas da antiguidade, não mais faladas hoje em dia, e o que temos são traduções. Isso sem contar que há dezenas e centenas de manuscritos, cópias, traduções que foram sendo acumuladas pelo povo de Deus no decorrer dos séculos, os quais muitas vezes diferem entre si.

Há várias maneiras da Palavra de Deus se revelar através do texto bíblico. Note que digo “se revelar”, não que “é ” o texto bíblico; mas com certeza não é lendo o texto literalmente, em nosso idioma, que o texto revela  Palavra de Deus com sua relevância para o tempo presente. A leitura bíblica necessita de reflexão e atenção a muitos detalhes. Sem isso, toda interpretação se torna “palavra de quem interpreta, e não Palavra de Deus”. Interpretações são manipuladas se não  estiverem fundamentadas e bem fundamentadas pela exegese, a ciência que estuda um texto a partir de seu contexto histórico, sua língua original, a cultura onde foi escrito e os destinatários do texto.

Uma coisa é a pessoa ler o texto como busca de conhecimento, outra coisa é ler em busca de crescimento interior. Mas nenhuma delas pode dispensar a exegese. Ou seja, não pode dispensar o conhecimento sobre a cultura onde o texto lido foi gerado, as características da língua e da linguagem adotadas no original, as relações sociais do momento quando o texto foi escrito, e do local onde o texto surgiu e, ainda, a intenção das pessoas que escreveram o texto, porque ele foi escrito e para quem foi escrito.

Para isso existem a Teologia Bíblica e a Educação Cristã nas Igrejas. Uma das coisas boas da religião institucionalizada é que ela pode prover meios de formação e capacitação de pessoas para exercer o ministério da interpretação, da educação e formação. Essas pessoas, de diferentes capacitações e conhecimentos, colaboram para o trabalho da exegese, e produzem as ferramentas para a comunidade de fé compreender o texto em seu contexto existencial e perceber ai a Palavra de Deus. Por isso, a instituição eclesiástica tem de ser constantemente avaliada e reformada, pois ela também é passível de influências ideológicas do meio onde está presente…

Não existe cristão em “autogestão”. Ser cristão implica em participar de uma comunidade de fé, que por sua vez está vinculada a uma instituição religiosa. Porque é na Comunidade de Fé que a interpretação se torna Palavra de Deus para este tempo e este lugar. Não a interpretação de uma pessoa, mas de um grupo de estudo e discussão que conta com o apoio de pessoas que partilham seu conhecimento para que haja uma hermenêutica da comunidade, ou seja, uma compreensão do texto pela comunidade.

Isso dá espaço para que o Espírito Santo atue e ilumine o estudo da Bíblia. Da mesma forma, uma leitura individual, a partir da vivência na comunidade e no diálogo, acaba sendo também espaço para o Espirito Santo atuar e revelar a Palavra de Deus.

Portanto, toda leitura da Bíblia, seja para conhecimento ou crescimento interior, precisa da oração e da disposição em dialogar, em ouvir, e abertura para questionar. Os “interpretes oficiais” não são porta-vozes de Deus, mas pessoas que colocam seu conhecimento a serviço da comunidade onde, de fato, deve surgir a interpretação hermenêutica adequada àquela situação específica do momento histórico e sociedade.

Isso só é possível se a comunidade de fé é tal que reúne pessoas diferentes, de diferentes histórias de vida, condição social, formação escolar, etc. Caso contrário, a comunidade se fecha em si mesma e cria sua própria “ideologiazinha tribal”, deixa de fazer missão e se torna um clube de amigos.

Por sua vez, que ousa ler a Bíblia sem uma vivência na comunidade de fé, acaba interpretando um texto bíblico da forma que mais lhe convém… e então, se ilude  se confunde.

Um dos princípios basilares d Reforma Protestante no século XVI foi desvincular a interpretação bíblica de uma teologia oficial e institucional, defendendo o “livre exame das Sagradas Escrituras”. O livre exame é o livre acesso à Bíblia (até então oculta do povo e manipulada segundo interesses institucionais). Mas “livre exame” não é o mesmo que “livre interpretação”… Por isso, desde o início, o Protestantismo investe em formação e educação da comunidades para possibilitar a leitura e o estudo da Bíblia.

Rev. Luiz Caetano, ost+

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