Papo com um ateu

Debatendo_AteuParece piada, mas essa conversa aconteceu há muitos anos atrás, entre eu e um grande amigo que se dizia ateu. Ele era um acadêmico da área de exatas; na verdade, ele era meu professor de Cálculo de Predicados, o nome matemático da Lógica. Eu já estava estudando teologia e estava concluindo o curso de Matemática.  Vou chamá-lo de Carlos, mas na verdade ele era chinês, um grande professor e renomado matemático apesar de sua pouca idade, antes de 40 anos. Carlos era fluente em cinco línguas!

Naquela ocasião eu já era cristão. Estávamos sempre juntos resolvendo problemas de Xadrez na sala do Centro Acadêmico da Faculdade. Vez em quando ele puxava a conversa para o tema da religião.

_”Você diz que tem fé, não é, Caetano? Já imaginou se você gasta sua vida nessa fé e depois de morto descobre que Deus não existe?  Perdeu sua vida crendo numa bobagem!”

_”Já pensei nisso, sim, Carlos. E só me fez ficar mais firme na fé!”

_”Como assim?!?!”

_”É uma questão de lógica! Se Deus não existir, eu não perdi nada, ao contrário do que você disse. Porque se ele não existir, eu não vou saber, porque morri, e não havendo nada além da morte, eu não terei ciência disso!  Porém, passei minha vida com uma esperança que só a Fé permite, assumi uma postura ética que me fez ser uma pessoa solidária e conviver em harmonia com muitas pessoas, inclusive com quem pensa diferente de mim, como é o seu caso; apesar dos meus pecados tenho a certeza do perdão em Cristo…”

_” Bem, concordo até certo ponto. Então o fato de você não vir a saber que Deus não existe é seu fundamento?”

_” Não! Vou colocar tua pergunta de outra maneira: vamos ver o seu caso. Você passou a vida negando a existência de Deus, a vida depois da morte, essas coisas todas;  por isso assumiu uma postura moral – note bem, eu disse moral – dentro dos padrões sociais onde você vive.  Talvez, espero, tenha tido uma vida feliz. Ai, você morre e descobre que Deus existe, e tudo aquilo que você negava é um fato real.  Comparando com minha resposta anterior, qual de nós dois ficaria mais frustrado depois de morrer?  Eu, que não fiquei sabendo da verdade, ou você que descobriu tarde demais a verdade?”

_” ?!?!?!?!?!?!”

_ “Assim,meu caro, já que você pensa na moralidade dualista do certo e do errado sem explicar o por quê é certo ou errado, que pensa nas categorias de ganhar ou perder e fica preocupadíssimo em tentar convencer as pessoas da tua “fé ateia”, eu te digo: você tem tudo a perder se Deus existir; já eu, eu não perco nada se Ele não existir! Xeque Mate!”

_ “!!!”

_ “ E outra coisa, Carlinhos! Você confunde Fé com Religião. Fé uma experiência e um dom recebido de Deus. Religião é um fenômeno no campo da Antropologia.  Claro que, tendo Fé, professo uma religião, participo de uma comunidade de fé,  mas não necessariamente quem professa uma religião tem a experiência da Fé, porque não a buscou…  Busque a Deus e Ele se revelará a você”!

Terminei a conversa e dei a ele um exemplar do Novo Testamento (na época eu era divulgador da Sociedade Bíblica). Passamos as semanas seguintes conversando sobre isso, sobre a minha Fé, sobre o Evangelho que ele estava lendo ferozmente, sobre as Cartas Paulinas… contei a ele minha experiência de conversão. Ele ficava atento a tudo…

Certa noite, Carlos telefona para minha casa, já  quase meia-noite.  Carlos estava sumido. simplesmente desapareceu, ficou quase uma semana sem dar aulas. No telefone ele disse:

_ ” Preciso falar muito com você e não posso esperar amanhã. Estou indo ai agora!”; desligou o telefone e uns vinte minutos depois estava na minha casa.

_ “ Entendi! Eureca!  Descobri Jesus! Quero ser batizado agora! “

Tentei explicar que não precisava ser agora, que ele podia ir à Igreja, conversar com o pastor…  mas ele insistia e dizia que se eu não o batizasse naquele momento, ele ficaria decepcionado demais com os cristãos. E começou a falar de seus pecados.

Acabei concordando e ele se responsabilizou em ir domingo na igreja comigo. Carlos foi batizado por aspersão no tanque do meu apartamento! Estava feliz, orou comigo, cantou em chinês um hino que havia aprendido da avó na China… foi embora feliz da vida!

No dia seguinte, cheguei à faculdade no início da noite. Estava tudo fechado, apenas alunos pelos corredores… e havia um carro de polícia e uma ambulância.

_ “O Professor Carlos estava jogando pingue-pongue no Centro Acadêmico”,  me disse um colega, “e teve um infarto fulminante, morreu na hora!”

Comecei a chorar e minha emoção era confusa. Apenas consegui pensar: “Agora você já sabe, Carlos! Até um dia!”

Rev. Luiz Caetano, ost+

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