Perdidos?

Há alguns anos, havia uma série popular de televisão, chamada Lost (perdido, em inglês). Ela se tornou bastante popular no Brasil, pois o ator Rodrigo Santoro teve um papel secundário em alguns episódios. A série mostra a vida de sobreviventes de um acidente de avião, numa ilha tropical misteriosa, depois do jato ter caído em algum lugar do pacífico, entre a Austrália e os Estados Unidos.

Mas mesmo se vocês não assistiram a essa série, talvez se lembrem de um desenho animado muito famoso nos anos oitenta: Caverna do Dragão. A trama por detrás desse desenho é sobre um grupo de crianças que são jogadas num reino mágico ao entrar numa montanha-russa de um parque de diversões. Elas querem voltar para casa, mas sempre há alguma coisa que as impede de fazê-lo (em 90% das vezes, o culpado é um unicórnio idiota).

Estar perdido, inevitavelmente, não é um sentimento desconhecido para as pessoas. Alguns devem ter se perdido fisicamente, imagino. Conheço uma pessoa cujo filho se perdeu três vezes dentro de um supermercado, o que agora a força a mantê-lo preso a ela por uma corda, quando saem para fazer compras. Outras pessoas, mesmo já sendo adultas, ainda se perdem. Eu sou uma delas. Eu posso me perder facilmente em estacionamentos e isso gera umas boas piadas a serem contadas em outro momento.

Estar perdido não é uma boa coisa. Não mesmo. Quando alguém se acha só, ela(e) pode achar que não há forma de sair dali. A sociedade também contribui para isso. Já perceberam o impacto que palavras como “perdedor”, “perdido”, “caso perdido” (e outros derivados do verbo “perder”) têm? Jesus, em contrapartida, não se importava em caminhar com aquelas pessoas a quem fariseus e doutores da lei chamavam de “casos perdidos”.

Nossas igrejas têm a metáfora de rebanhos. Isso porque ovelhas são animais que andam em bandos e, se espalhadas, também tendem a se perder. Como são animais sensíveis, qualquer coisa pode distrair esses bichinhos felpudos e fazer com que uma (ou até um grupo) se desgarre. Como as ovelhas, nós tendemos a formar grupos de oração, adoração e louvor muito facilmente. Entretanto, é igualmente fácil para nós nos distrairmos ou nos ofendermos com alguma coisa, largando projetos e iniciativas de nossa comunidade de fé. As “ovelhas” remanescentes provavelmente dirão que era um caso perdido mesmo. Aquela pessoa está perdida.

Em outro momento, Jesus se refere às pessoas “perdidas” como uma moeda preciosa que uma senhora não consegue achar. Não era muito dinheiro, mas tinha seu valor. Mas era tarde (e provavelmente escuro). A maioria das pessoas (eu inclusive) tentaria achá-la num primeiro momento, mas em caso de insucesso, ficariam ainda satisfeitas por ter a maioria do dinheiro, esperando pelo dia seguinte (e pela luz do sol) para procurar novamente. Estava perdido mesmo!

O que se esquece é que a palavra “perdido” pressupõe dois fatos: que o objeto (ou pessoa) em algum momento não estava perdido, e que ele ainda pode ser encontrado.

É aí que reside a diferença entre Deus e nós. Deus, aqui representado tanto como um pastor de ovelhas quanto como uma mulher dona-de-casa, não desiste de buscar o que estava perdido. Todos nós, seres humanos, fomos destinados a pertencer a Ele(a), desde o início dos tempos. Por diversas razões, acabamos por “perder” o caminho. Minha esperança, contudo, é saber que não há ninguém que é perdido, mas sim que está perdido. E Deus continua buscando incessantemente por essas pessoas. Nossa postura, como membros do Corpo de Cristo, é entender que somos suscetíveis a esse estado de perda, e nesse caminho contínuo de conversão, é bem verdade que provavelmente já nos perdemos (ou tivemos vontade).

Neste momento em que vivemos tantas transições na vida de nossa comunidade de fé, precisamos nos ater ao essencial: cada pessoa que passou em nosso convívio é importante. E a ausência delas merece ser sentida. Como servos e servas do Deus que é grande Pastor e também grande Ecônomo do lar, não podemos deixar ovelhas desgarradas e moedas perdidas pelo mundo. A música famosa diz que é preciso amar as pessoas “como se não houvesse amanhã” e eu insisto que é preciso busca-las também. Como cristãos e cristãs, temos de aprender a enxergar os outros com o olhar misericordioso de Deus, para quem nada é eternamente perdido.

Falamos muito em sede, e na necessidade de um local definitivo para nossa paróquia. Mas precisamos entender que essa sede deverá ser aprisco onde todo o rebanho de Deus possa se abrigar. Deverá ser cofre onde todas as pessoas preciosas de Deus se sentirão protegidas. E isso demanda de nós alcançar quem está perdido(a), mas nunca é, nem nunca será perdido(a). Quem são as pessoas de quem você sente falta em nosso meio? Quem são as pessoas que nunca estiveram em nosso meio, mas poderiam estar? Há todo um mundo ao nosso redor para semearmos. E que Deus fortaleça nossa comunidade, nossa Igreja e nossas vidas.

Rev. Luiz Coelho +

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.