Quebrando o Paradigma da Paralisia

Paraltico-17Jesus foi (é) especialista em romper paradigmas. Por exemplo, em Marcos 1.40-45, ele toca em um leproso e o cura. Todo mundo dá muita importância à cura, mas o fato mais importante do texto é que Jesus tocou o leproso! Segundo a Lei de Moisés, isso fazia de Jesus um impuro, tanto quanto o leproso. Mesmo assim, Jesus desobedece a norma, rompe o paradigma sobre impureza e coloca o homem, antes excluído, apto para viver em sociedade.

Eu gosto muito de ler, estudar e refletir o Evangelho segundo São João. Acho que é um dos livros mais fortes da Bíblia, e muito mal compreendido pela Igreja… chegou a ser suspeito de heresia gnóstica antes de ser aceito pela Igreja Antiga! Não é para menos! João apresenta um Jesus que rompe paradigmas o tempo todo, algumas vezes de forma cínica, encarando de frente os “donos da verdade”, escribas, fariseus, saduceus, autoridades religiosas e outros “especialistas em Deus” naquele tempo.

Uma das minhas perícopes preferidas é João 5.1-18, com o péssimo e errado título de “cura de um paralítico” dado pelos antigos editores da Bíblia em língua portuguesa:

1 Passadas essas coisas, havia uma festa dos judeus, e Jesus foi para Jerusalém. 2 Existe ali, junto ao Portão das Ovelhas, um tanque, chamado em hebraico Bethesda, o qual tem cinco pórticos. 3 Nestes jazia uma multidão de enfermos, cegos, coxos, paralíticos 4 [esperando que a água se movesse. Porque um anjo descia de tempos em tempos, agitando-a; e o primeiro a entrar no tanque, uma vez agitada a água, sarava de qualquer doença que tivesse].  5 Estava ali um homem enfermo havia trinta e oito anos. 6 Jesus, vendo-o deitado e sabendo que estava assim havia muito tempo, perguntou: — Você quer ser curado? 7 O enfermo respondeu: — Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada. Quando tento entrar, outro enfermo chega antes de mim. 8 Então Jesus lhe disse: — Levante-se, pegue o seu leito e ande.  9 Imediatamente o homem se viu curado e, pegando o leito, começou a andar. E aquele dia era sábado. 10 Por isso, os judeus disseram ao que tinha sido curado: — É sábado, e neste dia você não tem permissão para carregar o seu leito. 11 Ao que ele lhes respondeu: — O mesmo que me curou me disse: “Pegue o seu leito e ande.”  12 Perguntaram-lhe: — Quem é o homem que disse a você: “Pegue o seu leito e ande”? 13 Aquele que tinha sido curado não soube responder, porque Jesus tinha se retirado, por haver muita gente naquele lugar. 14 Mais tarde, Jesus o encontrou no templo e lhe disse: — Olhe, você foi curado. Não peque mais, para que não lhe aconteça coisa pior. 15 O homem se retirou e disse aos judeus que tinha sido Jesus quem o havia curado. 16 E por isso os judeus perseguiam Jesus, porque fazia essas coisas no sábado. 17 Mas Jesus lhes disse: — Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também. 18 Por isso, os judeus cada vez mais queriam mata-lo, porque além de desrespeitar o sábado, também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus.  (Versão Nova Almeida Atualizada/Sociedade Bíblica do Brasil)

Entendendo o Texto:

Vejamos algumas coisas no texto: diz ai que o sujeito está DOENTE há 38 anos. Não diz que ele é paralítico. Uma parte do texto é uma glosa (está entre colchetes, significando que não há unanimidade nos manuscritos gregos originais sobre o trecho). Mas essa glosa explica que há uma crença popular antiga sobre o tanque em Bethesda: um anjo vinha agitar as águas e o primeiro que entrasse no tanque era curado.

Que coisa mais maluca, você não acha? e profundamente injusta! Esse negócio de Deus fazer uns “milagrezinhos” para alguns e deixar uma multidão se lascando o tempo todo é algo muito pouco coerente com o Deus amoroso que Jesus revelou!

Os que se locupletam com os lucros dos milagres vão dizer sempre que não acontece o milagre se o sujeito não tiver Fé.

Então está lá o sujeito, enfermo e paralisado por uma crendice… totalmente dependente e escravo de um costume religioso sem sentido algum! Jesus chega até ele e, com uma tremenda cara de pau, simplesmente manda o sujeito ir embora para ser curado!!!! Ele não ora, não impõe as mãos, não passa cuspe no sujeito, não molha com água milagrosa! Jesus faz absolutamente nada! apenas manda o sujeito pegar suas coisas e dar o fora! A coisa é tão surpreendente que o sujeito vai embora e nem mesmo sabe quem é aquele que o libertou!

Isso causa um tremendo furor entre as autoridades e os ambulantes que, com certeza, estavam por ali explorando aqueles infelizes… como em qualquer santuário milagreiro, sempre tem o pessoal do comércio de coisas sagradas e vendedores de empadinha, coxinha e pastel… Ora bolas! um sujeito “doente” simplesmente se levanta e vai embora, sai curado sem passar pelo ritual do banho!!! que risco para os negócios!!! Claro, eles têm de arrumar uma forma de atacar quem teve tal ideia! e como sempre, buscam uma razão moralista para acusar quem rompeu com o costume: invocam a lei do sábado! e fazem o maior tré-lé-lé com isso.

O sujeito “curado”, por sua vez, fiel às leis religiosas, vai para o templo, com certeza para se apresentar ao sacerdote e dar sua generosa oferta pela cura, em ação de graças! E lá acaba se encontrando de novo com Jesus, que lhe dá uma bronca: — Escute! Você agora está curado. Não peque mais, para que não aconteça com você uma coisa ainda pior. Ou seja! o que você está fazendo aqui??? insistindo em manter o costume sem sentido???

Mas então as autoridades descobrem que Jesus foi o responsável por aquele desatino que ameaçava o próspero negócio milagreiro de Bethesda. E começa o ataque moralista sobre o sábado…

Paradigma e Tradição

Essa é uma característica da primeira parte do Evangelho de João, do capítulo 2 até o 12: a permanente querela das autoridades religiosas com Jesus em relação aos costumes e regrinhas da religião, os bons costumes que fazem tudo funcionar bem… os paradigmas, que não são a Tradição, mas a forma de interpretar a Tradição.

Como Israel no tempo de Jesus, a Igreja é herdeira de uma Tradição muito antiga. Nesses 2000 anos de história, a Igreja foi interpretando e reinterpretando a Tradição, para responder ao tempo do presente. Mas muitas coisas acabaram grudando na Tradição, se tornaram paradigmas, certezas absolutas, e se confundiram com a Tradição, a cristalizaram, a emparedaram. O que era resultado da reflexão à luz da Fé, em determinado momento, acabou se tornando um valor perene, não questionável, engessando a reflexão e a percepção da Palavra de Deus em tempos posteriores.

Eu creio firmemente que a Palavra de Deus fala às pessoas de cada geração, de cada tempo e apresenta o Caminho de Deus para esse tempo. Temos hoje na Igreja costumes, normas, padrões, que são discrepantes e nada dizem para o homem contemporâneo. Muito do que falamos sobre doutrina, missão, evangelização, liturgia, devoção, é meramente paradigma, algo que em certo momento foi útil, mas já não é mais. Nossa própria visão de Igreja – a eclesiologia – está engessada na institucionalização brutal que acabou tomando conta de nossa maneira de funcionar: nossas formas de governo, nossos cânones, as centenas de órgãos burocráticos e “comissões de coisa alguma” que são criadas para qualquer decisão a ser tomada… O eclesial da Igreja acabou sendo minimizado pela enormidade eclesiástica!

As pessoas hoje entendem a Igreja (e as Igrejas) como instituição! E vivemos um tempo em que as Instituições perderam a confiabilidade. Quase não se percebe mais a “Ecclesia Tou Theou”, a Comunidade de Deus (literalmente “Assembleia de Deus”!!!).

Aquilo que deveria ser a infra-estrutura para a Missão (Martiria), para o Serviço (Diaconia), para a Comunhão (Koinonia) acabou se tornando superestrutura centrada em si mesma, que cuida apenas do próprio umbigo.

Concluindo

Não seria hora da gente ter a coragem de reavaliar tudo e quebrar os paradigmas que nos amarram e nos fazem perder um tempo enorme de nossas vidas inutilmente? recuperar a Tradição, polir aquilo que verdadeiramente é nossa herança, recebida de nossos ancestrais, e tornar a Igreja uma COMUNIDADE DE FÉ  realmente relevante e atuante no testemunho do Evangelho???

Precisamos de mais estudo e menos burocracia! precisamos de mais oração consequente que “rezação” para cumprir preceito! estudar a Tradição, separar joio do trigo e, então, pegar nossa cama e sair caminhando, libertados dos paradigmas que nos paralisam.

(“Quem sabe a gente cria uma comissão para estudar o assunto?” ARGH! vou vomitar!)

Rev. Luiz Caetano, ost+

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