Realidade Virtual e Vida Real

Solidariedade moderna 2Um exemplo de “realidade virtual”: quando brincamos com videogames, vislumbramos na tela uma paisagem, muitas vezes bonita e agradável de se olhar; figuras humanas ou seres mitológicos comportam-se como se estivessem vivos.

Há programas de computador que permitem passear pelas ruas de Salvador, Paris ou Nova York, sentados em nossas poltronas, com detalhes impressionantes. Existem “óculos eletrônicos” que dão a sensação de estarmos realmente andando nas ruas das cidades, interagindo com os personagens de jogos. Existem sensores eletrônicos que, espalhados pelo corpo, permitem que tenhamos sensações de toque, frio, calor, interagindo com um personagem que pode ser “uma pessoa real” ou um ser fantástico, criado pelo programa que estamos usando.

Sofisticados programas de computadores permitem sensações reais a partir de uma realidade criada em seus chips! É a “realidade virtual”, a fantasia trazida para as dimensões do real! Coisa mágica? parece…

O cidadão comum convive quotidianamente com a tecnologia sofisticada, que ele não compreende, mas sabe usar, e ao mesmo tempo que usa, ela lhe parece muito complicada para ser compreendida, algo mágico! Por exemplo: apertam-se alguns botões, digitam-se alguns números, e a máquina fornece o extrato bancário que antes era fornecido por uma pessoa cujo nome se conhecia, com quem se conversava sobre o tempo ou sobre o resultado do último jogo de futebol.

As relações são, cada vez mais, mediadas pela tecnologia sofisticada, criando a sensação de que o outro não é necessário ! Na realidade virtual, o outro pode até ser deletado se chatear muito!

Na maioria dos videogames, ganha quem mata mais! Para o computador, entretanto, ninguém morre; apenas alguns bits de informação são deletados. Mas para o garoto esperto, campeão da casa, “matei o cara com um bombardeio de laser!”. Na realidade virtual se mata mais que peste bubônica na Idade Média!!!

A impotência como mercadoria e consumo

Nossa relação com a televisão, da forma como ela é feita (para atender demandas de mercado e não de educação) tem um pouco a ver com esse conceito de realidade virtual. Nos acostumamos tanto com a “telinha do plim-plim” e não percebemos que as imagens no telejornal, por exemplo crimes, violência, acidentes, morte, falam de situações reais . E então produzem pouco impacto porque os fatos são mostrados sem reflexão sobre seu significado, são oferecidos como mercadoria de consumo.

A realidade se torna algo distante, fora do contexto da vida cotidiana, como se os acontecimentos do mundo não afetassem o cidadão que assiste o telejornal, (mais de imagem que de texto), criando a sensação de se estar fora do mundo. Algumas pessoas, é verdade, reagem com um sentimento de pena e indignação: “onde vamos parar?”, “que se pode fazer?”, “alguém precisa fazer alguma coisa!”. Mas nos sentimos impotentes para, de fato, “fazer alguma coisa”.

Impotência induzida, consumida e assumida! O mundo se torna virtual; real mesmo só a vida de cada um, cada vez mais complicada, cheia de correria e preocupações e a necessidade de atender demandas muitas vezes imaginárias, virtuais.

A tecnologia, que deveria melhorar a qualidade de vida das pessoas, acaba se tornando dirigente da vida humana, dirige-nos de todas as maneiras e nos tornamos absolutamente dependentes dela.

Pode ser diferente!

A realidade virtual pode ser um instrumento excelente para educação, por exemplo. A capacidade tecnológica de criar, dentro do computador (realidade virtual), imagens e situações que simulam a realidade concreta da vida, é útil para treinamento de tarefas de risco e poderia ser fartamente utilizada na formação de valores éticos.

Videogames onde a vitória seria de quem conseguisse estabelecer melhores relações de cooperação e parceria, por exemplo, ao invés de ganhar quem mata mais ou conquista mais em prejuízo dos outros. Programas onde as pessoas fossem estimuladas ao afeto, à compreensão e à solidariedade.

É sempre possível imaginar e criar coisas assim, basta querer! Basta não se deixar levar pelo mercado… basta ter como pressuposto ético a vida humana e não as exigências criadas pelo mercado.

O “Indo por todo o mundo...”  que encerra as narrativas de Marcos e Mateus é um mandato real no espaço e também no tempo!

Ir ao mundo neste tempo, apropriando-se do conhecimento que hoje é meio de opressão e alienação para que se torne realmente instrumento de melhoria da qualidade da vida e das relações humanas. Isso é evangelizar! Um testemunho da Salvação “na real”!

Diante do mundo e da vida sem graça dependente das ilusões impostas, o Povo de Cristo, a Igreja (Eclesial) é enviada para dispensar a Graça e convidar para a Vida Abundante.

Pense como você pode colaborar para que essas coisas mudem! Sempre é possível se fazer alguma coisa, mesmo que pequena, mesmo que os resultados imediatos não aparecem… afinal, o Reinado de Deus já está entre nós!

Rev. Luiz Caetano, ost+
Parte de artigo publicado anteriormente em 
Tempo e Presença nº298 
Koinonia Presença Ecumênica e Serviço

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