Por que Deus permite o sofrimento?

Jó 1Diante de uma tragédia, do sofrimento,  sempre se pergunta: ”por que Deus permite isso?”  Não precisa ser uma grande tragédia! Falo também das nossas pequenas tragédias cotidianas, situações que nos deixam cheios de interrogação e indignados: porque acontecem coisas ruins com boas pessoas?

É compreensível, pelo senso comum, que pessoas más devam sofrer. Esse é um sentimento que aflora naturalmente – um desejo de vingança contra os maus que se denomina justiça: dar a cada um a punição  que merece!

Porém, o sofrimento de uma pessoa boa, bondosa, é incompreensível! “Mas por que com ele?  ele não merecia isso!”  são expressões que ouvimos sempre, pois contradizem o senso comum de justiça.

Tal é o tema do Livro de Jó, um imenso diálogo de Jó com Deus sobre as razões do sofrimento humano, intermediado por amigos de Jó e sua esposa, que tentam justificar a desgraça que se abateu sobre ele. O coitado do Jó indaga de Deus a razão do sofrimento humano! na verdade, ele questiona Deus a razão do sofrimento das pessoas justas. Aliás, no início mesmo do Livro, Jó é apresentado como homem íntegro e reto, temente a Deus e se desviava do mal; Deus mesmo o reconhece como tal (Jó 1.1-8).

Os amigos de Jó, na verdade buscam encontrar uma razão do sofrimento de Jó como resultado do que ele fez. Estão dizendo a Jó: “você fez alguma coisa errada, você fez uma escolha errada; você é responsável pelas suas escolhas”.

Essa afirmação, que “somos responsáveis pelas nossas escolhas” é a melhor justificativa para não demonstrar solidariedade, de não demonstrar misericórdia:  “Você fez escolhas erradas, portanto, dane-se”.

Jó escolheu ser íntegro e reto. Mas deve ter feito alguma coisa, porque Jó precisa ser culpado para que a consciência de seus amigos fique em paz!

Imaginem se Deus pensasse assim: “Você escolheu o pecado,  portanto, meu caro, vá pro inferno e pare de me chatear!”  O problema é que, na sociedade, se pensa exatamente assim!

E a Igreja muitas vezes pensa do mesmo jeito. A menos que você escolha ser “fiel”, está perdido – entendendo-se que “ser fiel” é aceitar um código moral  definido ela própria instituição religiosa, que se arvora em definir como Deus pensa.

Os conceitos de culpa e punição são tão fortes na Igreja que a Igreja não prega nada além daquilo que chama de Justiça Divina.  A Igreja se contaminou com a ideologia do Império: a ideologia da culpa e do castigo. Mas o Evangelho fala de culpa e perdão.  Por isso, a Igreja em nada se difere dos fariseus e doutores da Lei, aos quais Jesus se opôs denunciando-lhes a hipocrisia.

A Igreja, quando fala de perdão, fala de forma condicional: se você não fizer isso e aquilo, não será perdoado. A Igreja se esquece da Misericórdia e da Graça. É a Graça de Deus, nos dada em Jesus Cristo, que permite, apesar das minhas escolhas erradas, que eu possa receber a remissão e o perdão dos meus pecados.  É a Graça de Deus que permite que eu possa recomeçar sempre de novo.

Por isso, a atitude cristã diante do sofrimento, e do pecado, deve ser, a exemplo de Jesus, atitude de misericórdia e cura. O sofrimento humano nem sempre é consequência de escolhas de quem sofre.

Muitas vezes, o sofrimento  é consequência da decisão (escolha) de outras pessoas… Por exemplo: por que aquelas pessoas morreram em Brumadinho? já pensou nisso?

Aquele sujeito bondoso foi atropelado porque alguém decidiu não respeitar as regras do trânsito?  é mesmo “culpa” de Deus? já pensou nisso?  ao perguntar “porque Deus permite isso”, você está colocando a culpa em Deus!

Rev. Luiz Caetano, ost+

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