Viver à luz de Cristo numa sociedade plural

Banner-Louvor

Uma das tentações mais comuns que incorrem nas pessoas cristãs é a de se isolar “do mundo”. Ou seja, tudo que tem a “aparência de mundo” necessita ser evitado: festas, bebidas, diversão, música, danças e outras alegrias obviamente chamadas de mundanas. Esse preconceito não é somente de certos meios evangélicos e pentecostais, tem raízes históricas muito mais profundas, e grupos similares que buscavam se “isolar do mundo” estão presentes em quase todas as eras. É só vasculhar um pouco a História da Igreja para encontra-los.

Um dos teólogos que mais escreveu sobre o relacionamento entre Cristo e cultura foi Richard Niebuhr. Seu livro sobre o assunto foi referenciado em várias obras ao longo da segunda metade do século XX e até os dias de hoje. Para Niebuhr, o cristianismo tem respondido à cultura de cinco diferentes modos principais:

  1. Cristo contra cultura, segundo a qual, não há, para a pessoa cristã, qualquer interlocução com a cultura local. É preciso implementar uma nova cultura cristã e sepultar os aspectos culturais prévios à vida cristã. Esse argumento permanece no discurso de muitos grupos cristãos até os dias de hoje. Em resumo, tudo que é da cultura está errado e deve ser rejeitado.
  2. Cristo da cultura, a partir do qual Jesus torna-se o cumprimento das esperanças e aspirações da sociedade, sem maiores tensões entre a igreja e o mundo, as leis sociais e o Evangelho. Um certo tipo progresso, então, torna-se para essas pessoas, o cumprimento da profecia de Cristo, sem maior crítica acerca do desenrolar da História. Ao levar o Evangelho a outras culturas, leva-se então uma cultura vista como de progresso, mais avançada, e, portanto, “cristã”. Em resumo, um tipo de cultura (por exemplo, a cultura norte-americana dos missionários) é a correta e espelha a ação de Cristo.
  3. Cristo acima da cultura, de acordo com a qual, a História é o relato do encontro do Espírito com a natureza. A igreja e sua mensagem são institucionalizadas e aqueles elementos que variariam culturalmente acabam sendo absolutizados. Essa foi a postura do catolicismo romano por boa parte da Idade Média, levando não o Evangelho, mas uma cultura específica.
  4. Cristo e cultura em paradoxo, através da qual a Igreja não pode se misturar com a cultura do mundo. Ambos coabitam sem superposição. A fé não pode ser acomodada aos modos seculares de pensamento e a cultura não pode ser influenciada pela fé.
  5. Cristo transformador da cultura, a partir da qual entende-se que a pessoa cristã vive num contexto cultural e pode transformá-lo de acordo com a visão de Cristo. Não há divisão entre o sagrado e o profano. Todas as nossas atividades culturais podem ser transformadas à luz de Cristo, sendo utilizadas como reflexo do Evangelho na sociedade. Essa abordagem é vista, por muitos, como a ideal para a Igreja numa sociedade tão plural como a dos dias de hoje.

A tradição anglicana, historicamente, nunca foi uma tradição de oposição ao mundo que a cerca. Buscamos aceitar os elementos culturais locais, o progresso científico e as mudanças da sociedade ao nosso redor, sempre tentando nos engajarmos com elas, retendo o que é bom (1 Tessalonicenses 5) e propondo um olhar transformador de Cristo sobre elas.

Deixo a vocês o desafio de que possamos nos ver como agentes transformadores da cultura. Ao invés de nos isolarmos do que nos cerca, que procuremos entender todas as atividades culturais dos nossos contextos como coisas boas em si, que merecem permanecer, sendo transformadas à luz de Cristo. Nossos ritmos, nossas danças, nossas festas, cores e sabores podem ser utilizados também para a promoção do Evangelho.

Rev. Luiz Coelho+

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.