ZAQUEU, O PUBLICANO

ZaqueuPara desespero dos moralistas de plantão, não há, uma sequer, palavra de Jesus, nos Evangelhos, sobre a “imoralidade” sexual de seu tempo. Sabemos que Jesus viveu em uma sociedade que, embora em área judaica, era profundamente marcada pelo helenismo, cuja base ética não se importava com o hedonismo ou o erótico. Jesus também não! como veremos, sua preocupação é outra.

Vão citar, com toda certeza,  para me corrigir, a Samaritana (que tinha cinco maridos e mais um) ou a “mulher adúltera” (cujo adultério não foi demonstrado, como exigia a Lei). Ambas as referências são do texto de João, o qual, como sempre, é  mal entendido pelas pessoas “de fé”, porque gostam de lê-lo a partir dos próprios paradigmas para justificá-los e não a partir do tempo e do  contexto onde João foi escrito.

Mas não é esse o tema que vou abordar. Falei nisso só pra chatear os moralistas… que aliás, chateiam todo mundo!

Acontece que, também para desespero dos moralistas e, especialmente dos moralistas cujo referencial ético é o Capitalismo, há severas palavras de Jesus contra a exploração econômica de pessoas. Todavia, apesar se sua severidade, Jesus trata do assunto com profunda misericórdia e compreensão do coração humano, ao contrário dos moralistas de plantão de seu tempo e de todos os tempos.

A narrativa (Lucas 19.1-10) do encontro de Zaqueu, o publicano, com Jesus, o Cristo, é muito significativa, pois tem implicações essenciais para a compreensão da Boa Nova a partir do contexto da Igreja Primitiva, onde o Evangelho de Lucas foi gerado,

Zaqueu era judeu (a rima não é culpa minha!). Morava em Jericó, uma cidade relativamente importante. Como qualquer judeu daquele tempo, ouvia muito falar em Jesus, considerado talvez um profeta, talvez o Messias. Zaqueu queria ver Jesus pessoalmente.

Mas tinha dois problemas: primeiro, era um homem baixo, de pequena estatura, e a multidão, sempre ao redor de Jesus, o atrapalhava; segundo, era publicano, o tipo de judeu mal visto pelos judeus. Não seria difícil para Zaqueu, se quisesse, passar entre a multidão e colocar-se em um local onde pudesse ver Jesus no chão. Mas talvez não fosse esse realmente o problema… talvez Lucas quisesse dizer que a “pequena estatura” fosse em nível moral… Não sei, é uma conjectura apenas!

Assim, subir na árvore talvez não fosse apenas “para ver Jesus”, mas para ser visto por Jesus! discretamente… sem precisar ouvir os murmúrios da multidão pelo fato de ser publicano.

Afinal, qual o problema de ser publicano? acontece que os publicanos eram pessoas que exploravam o povo. Se encarregavam de cobrar os impostos exigidos por Roma. Mas não eram funcionários do Império. Eram empreendedores, investidores! Eles compravam a dívida do Imposto a Roma e depois cobravam a população com altíssimos lucros. O que Roma queria era receber a quantia que considerava justa pelo imposto (afinal, Roma garantia a “paz”, o livre comércio, cuidava da infraestrutura que havia construído – estradas, aquedutos, e até serviços como segurança e prevenção de incêndios!).  Vendendo o valor do imposto, Roma recebia, sem qualquer trabalho, o imposto devido e ficava a cargo do empreendedor receber o imposto rateado entre os cidadãos. Isso era baseado em legislação; por isso, Roma garantia o “direito” do empreendedor recuperar, com lucro, o valor pago pelo imposto.  Para Roma não interessava o quanto o publicano recebesse, afinal, o Império já estava com o dinheiro em caixa.

Você pode imaginar o quanto de extorsão havia por parte dos publicanos; por isso, eram considerados “pecadores públicos”, o tipo de gente mais odiada entre os judeus, traidores de sua nação, desobedientes da Lei de Moisés, pois exploravam seu próprio povo, e ainda colaboravam com o estrangeiro invasor e dominador.

De fato, Zaqueu viu Jesus, lá do alto da árvore. Mas o texto de Lucas diz que Jesus viu Zaqueu, e falou com ele sem delongas: “desce depressa porque eu vou ficar em sua casa!”

Tal intimidade me permite conjecturar (de novo) que Jesus já conhecia Zaqueu! Não importa como Jesus conhecera Zaqueu. O que importa é o que Zaqueu reconheceu em Jesus, quando recebeu o aviso direto “hoje ficarei em tua casa!”.

Muito cara de pau,  Jesus chega de supetão e diz: “vou ficar na tua casa!” , contra toda a etiqueta dos judeus! e, olha! a etiqueta era essencial nas relações entre judeus. Mas Jesus é assim mesmo: tem uma enorme cara de pau! não enrola e diz tudo cara a cara!

Zaqueu poderia ficar muito orgulhoso! Afinal, podia esfregar na cara dos seus concidadão (que já estavam murmurando): “viu? vocês não gostam de mim, mas Jesus de Nazaré escolheu ficar na minha casa!”; podia esnobar os fariseus, homens piedosos e zelosos da Lei… mas não! Zaqueu humilhou-se diante de Jesus e mudou seu modo de pensar e de agir!

Para a surpresa de todos, Zaqueu fez algo totalmente inesperado! A riqueza que havia acumulado de forma injusta, explorando seus concidadãos, ele dividiria com os pobres. E mais, devolveria quatro vezes o que havia defraudado. Ou seja, seu empreendimento foi pro espaço!  Afinal, metade do seu capital foi para os pobres; da outra metade ele ainda ia devolver quatro vezes mais para quem ele havia defraudado. Faliu, né? deve estar devendo até hoje!

Mais surpreendente foi a fala de Jesus em resposta ao gesto de Zaqueu: “— Hoje houve salvação nesta casa, pois também este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido”! (Lucas 19.9-10).

Todos condenavam o publicano. Jesus é diferente! Não condena ninguém! Não julga ninguém. Seu paradigma é o Amor de Deus que Ele veio revelar.  Jesus atua sempre com misericórdia!

Todo encontro com Jesus é como o encontro de Zaqueu: as coisas mudam, as atitudes mudam, as ideias mudam!

E você, leitor,  já teve seu encontro com Jesus?

Rev. Luiz Caetano, ost+

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